Segundo o IBGE, mais de 60% das empresas brasileiras fecham antes de completar cinco anos. A Flávio’s Calçados fez o oposto: começou numa banca de 12 metros quadrados dentro de um mercado de feira em Goiânia e, quase cinco décadas depois, soma 27 lojas, e-commerce ativo, expansão para Minas Gerais e 26 anos consecutivos como top of mind no varejo calçadista de Goiás.
No episódio mais recente do IPOG Cast, Ronan Maia, CEO do IPOG, recebeu Flávio Rezende, CEO da Flávio’s Calçados, para uma conversa franca sobre os bastidores dessa trajetória. O resultado, de fato, foi uma aula de gestão, cultura e inovação que vale a pena ser assistida.
1- O que separa quem escala de quem estagna?
Essa foi exatamente a primeira pergunta de Ronan para Flávio. A resposta veio sem rodeios: “Acho que vem da liderança ter essa motivação de continuar por vários anos. A pessoa realmente gostar do que faz ali, porque são vários momentos que não foi fácil,” observa.
Mas Flávio foi além do óbvio. Ele trouxe o peso real da transição de geração, que, segundo ele, piora ainda mais as estatísticas de sobrevivência empresarial. “Tem horas que você se pega na cadeira de outra pessoa, que é quem construiu tudo aquilo. E você vai falar coisas que não são legais para a pessoa que fundou. Passei por tudo isso. Tem que ter muito respeito, mas ter foco no negócio,” diz.
Em suas palavras, Flávio diz que é preciso saber colocar a empresa à frente do ego. “Sair um pouco do ego da pessoa mesmo, e a gente conseguir construir um caminho para a empresa, e não para os líderes”, afirmou. Para ele, essa distinção é o que separa as empresas que crescem das que ficam presas num ciclo de vaidade pessoal.
Portanto, longevidade empresarial não nasce de sorte nem de mercado favorável. Ela começa, na visão de Flávio, quando o líder aprende a tirar o próprio nome do centro da história.
2- Inteligência emocional em primeiro lugar
Ao falar sobre o período em que saiu da empresa e depois voltou, Flávio tocou em algo que muitos líderes ignoram: “A questão emocional para um líder é um negócio super crítico. Você perdeu o jogo emocional, você perde a liderança,” pontua.
Ele explicou que manter equilíbrio de performance, independente do que está acontecendo ao redor, exige uma pirâmide de cuidados que começa no físico, passa pela família e só então chega ao trabalho.
“Primeiro você tem que se cuidar fisicamente. A gente fala muito da qualidade do sono, tem esporte no meio disso, tem o fator família. E tem você estar bem consigo mesmo. Começa por você. Senão você não consegue ajudar ninguém. Depois, no seu meio mais próximo de família, buscar sempre o equilíbrio, para depois você conseguir performar em trabalho em altíssimo nível,” declara.
Ou seja, o líder desequilibrado não é só um problema de comportamento, é um risco operacional.
3- A cultura é o que acontece quando você não está olhando
Na Flávio’s, cultura não é material de integração, é prática diária. Todas as 27 lojas começam o dia com reunião, leitura coletiva e o famoso grito de guerra, “garra, coragem, força, vencer, vencer, vencer”, que ressoa ao mesmo tempo em toda a rede.
“A cultura é o que acontece quando você não está olhando”, disse Flávio. Por isso, na sua visão, o papel do CEO é não ser omisso. “Não vou fazer vista grossa com alguma coisa que esteja passando à minha frente em relação à cultura. Porque, se eu for omisso, não vai descer.”
Além do grito de guerra, há reuniões semanais em cascata: toda terça pela manhã com a equipe de gestão, terça à tarde com os regionais e quarta com as lojas. A lógica é simples: comunicação semanal mantém o time olhando para o mesmo lado.
4- Inovação orientada a dados, não a modismos
O cartão próprio da Flávio’s, com abertura de crédito via biometria facial, parece tecnologia de ponta. Mas Flávio garante que a origem não foi tecnológica. “Onde estão os atritos, e vamos tirar eles. Essa era a diretriz, não era a tecnologia”, explicou.
Os dados tinham mostrado que os jovens estavam abandonando o crediário. A participação havia caído para 33% das vendas. Com a digitalização do processo, o número chegou a 46% no mês anterior à gravação, um recorde histórico. Ronan resumiu a lógica por trás disso: “Temos que construir coisas onde o atrito tende a zero,” diz.
Mas há um ponto que poucos empresários aplicam de verdade: inovação orientada a dados começa antes da tecnologia, começa na cultura de questionar. Ronan foi direto ao ponto: “Você priorizar coisas simplesmente pelo achismo, pela opiniologia, não é um bom caminho. Opiniões são muito bem-vindas. Com dados elas são ainda melhores,” observa.
Na prática, Flávio tentou criar um departamento de inovação separado. Não funcionou. O time ficava desconectado do dia a dia e as ideias não chegavam ao cliente. A solução foi distribuir: hoje cada área da empresa tem pelo menos uma pessoa com perfil de inovação dentro dela. “No departamento de compras, eu tenho que ter um ou mais pessoas de inovação. No departamento de pessoas, eu tenho que ter um inovador ali”, afirmou.
Para alimentar essa rede, a empresa criou a Universidade de Inovação interna, um horário matinal de uma hora, aberto a qualquer funcionário, para aprender IA, automação e ferramentas como Python.
Ronan reconheceu que esse modelo, chamado de ambidestria contextual, é o que funciona para empresas de médio porte: “Levar essa inovação dentro das áreas de negócio é o modelo que, para esse tipo de empresa, funciona melhor. O cara que ajuda a promover a inovação, que questiona, que usa dados, mas que está dentro das áreas,” explicou.
5- Expansão com pesquisa, não com achismo
Antes de abrir as primeiras lojas fora de Goiás, Flávio conta que rodou 800 quilômetros pesquisando praças acima de 100 mil habitantes. Visitou cidades, analisou concorrentes, avaliou pontos disponíveis e até contratou pesquisa com consumidores locais para testar aceitação da marca.
“Eu tenho dificuldade de não ter alguma coisa para balizar. Hoje não tem como fazer isso só no instinto, porque é um investimento alto.” A primeira loja fora de Goiás foi em Uberlândia. Hoje já há um piloto em Contagem, na Grande BH.
Consequentemente, o método reduziu o risco do erro caro. E revelou algo que muitos ignoram: o custo de pesquisar antes é muito menor do que o custo de abrir no lugar errado.
Assista ao episódio completo
Esses cinco pilares não surgiram de um planejamento estratégico impecável. Vieram de crises, transição de geração, pandemia e erros corrigidos com rapidez. No final, a história da Flávio’s Calçados mostra que consistência de cultura e decisões baseadas em dados valem mais do que qualquer atalho.
Quer conferir a conversa completa? Assista ao episódio no YouTube do IPOG Cast ou ouça no Spotify. Vale a pena cada ensinamento compartilhado.