Como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar no processo do luto
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Como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar no processo do luto

Pessoa em processo de luto durante sessão de Terapia Cognitivo-Comportamental, ilustrando apoio emocional e enfrentamento saudável da perda.

O luto é uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais desafiadoras da vida. Perder alguém querido provoca uma mistura intensa de emoções e pensamentos que, muitas vezes, parecem impossíveis de organizar. No entanto, compreender esse processo e buscar apoio psicológico pode tornar a travessia menos dolorosa.

Entre as abordagens mais eficazes nesse cuidado, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) se destaca. Isso porque ela oferece um caminho estruturado para entender as emoções e pensamentos que surgem diante da perda. Além disso, ajuda o indivíduo a desenvolver estratégias para lidar com o sofrimento, reconstruindo sua rotina e seus vínculos afetivos de forma mais saudável.

Para compreender melhor como essa abordagem pode contribuir no enfrentamento do luto, conversamos com a Dra. Thaís Bezerra de Menezes, psicóloga, professora e doutora (Ph.D.) em Psicologia. Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, a professora compartilha, nesta entrevista, como a TCC atua na compreensão do sofrimento, quais técnicas são utilizadas no processo terapêutico.

1- O luto é um processo inevitável, mas o que a Terapia Cognitivo-Comportamental pode oferecer a quem está passando por ele?

Mesmo em casos de luto normal, sem complicações como transtorno de luto prolongado ou transtorno depressivo maior, a Terapia Cognitivo-Comportamental oferece um espaço estruturado para compreender e modificar padrões cognitivos, emocionais e comportamentais que podem intensificar o sofrimento. A TCC ajuda a pessoa a desenvolver recursos para atravessar esse processo de forma mais adaptativa, respeitando seu tempo e suas necessidades individuais.

2- Em sua experiência clínica, quais são os desafios mais comuns enfrentados por quem vive o luto?

Alguns dos principais desafios incluem as distorções cognitivas. Distorções cognitivas são erros no pensamento que nos afastam de perceber a realidade como ela é. Acabamos percebendo muitas coisas sobre nós mesmos, o outro, o mundo e o futuro de maneira alterada por conta de crenças que aprendemos muito cedo na vida: as crenças nucleares.

Apesar de surgirem principalmente na infância e no começo da adolescência, essas crenças afetam o que pensamos hoje, inclusive sobre a perda de alguém amado. Esse fluxo de pensamento muitas vezes faz com que interpretemos a realidade de maneira equivocada, os pensamentos surgem carregados dessas distorções cognitivas.

Uma distorção cognitiva muito comum em pessoas em luto que tenho atendido envolve a adivinhação ou previsão do futuro, onde a pessoa acredita que, de alguma maneira, poderia ter previsto que aquela fatalidade aconteceria com seu ente querido e prevenido essa morte.

Apesar de racionalmente sabermos que não somos capazes de prever o futuro, essa distorção acontece com frequência e gera sintomas relacionados à tristeza, ansiedade e culpa, que podem ser trabalhados dentro de um processo terapêutico junto com o cuidado às crenças nucleares.

3- Quais princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental mais contribuem para o enfrentamento saudável da perda?

Penso que um dos princípios básicos da TCC que mais contribui para o enfrentamento saudável da perda é o princípio de que a TCC é educativa. Esse princípio aponta que um objetivo importante do tratamento em TCC é tornar o processo terapêutico compreensível e ensinar o cliente a ser seu próprio terapeuta.

Assim, o terapeuta em TCC trabalhará ativamente para que o cliente aprenda o que há de melhor na ciência baseada em evidências para lidar com seus próprios padrões cognitivos, comportamentais e emocionais.

4- Que técnicas ou exercícios da TCC podem ajudar as pessoas a ressignificar a perda e retomar a rotina?

Apontar técnicas isoladamente pode ser perigoso. Isso porque técnicas que trazem alívio rápido, como a respiração diafragmática, podem a longo prazo funcionar como esquivas. As esquivas nesse caso são, basicamente, estratégias comportamentais para fugir do desconforto da dor e da saudade. Embora possam ajudar a curto prazo, a longo prazo fazem com que o cérebro comece a reconhecer essa dor como perigosa, e assim ela só aumenta.

Ao mesmo tempo, técnicas mais estressoras que a longo prazo serão muito úteis para que o cérebro pare de reconhecer a imagem da pessoa perdida e a dor que sentimos ao lembrar dela como perigosas, a exemplo da exposição gradual à imagem da pessoa perdida, podem, a curto prazo, provocar um desconforto tão grande que se tornam arriscadas, caso o cliente o interprete como insuportável e não apenas como desconfortável.

Uma estratégia mais segura seria a ativação comportamental, em que o cliente volta gradativamente a fazer coisas que lhe interessavam ou geravam prazer. Mesmo assim, o fluxo de pensamentos sobre esses comportamentos precisa ser cuidado, pois as interpretações podem conter distorções cognitivas, como a catastrofização, e podem surgir pensamentos como “nunca mais irei ser feliz ou ter prazer”.

Assim, não existe uma técnica isolada que ajudará sozinha no cuidado aos processos de luto normal ou luto com complicações, mas a TCC definitivamente oferece um repertório flexível de intervenções que devem ser cuidadosamente selecionadas e adaptadas à conceitualização cognitiva individualizada de cada cliente.

 

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5- Como diferenciar o luto natural de um luto complicado que exige acompanhamento profissional?

Luto Normal: O luto normal é uma resposta natural e adaptativa à perda de alguém significativo. Caracteriza-se por ondas de tristeza intensa que vêm e vão, períodos de saudade e dor emocional intercalados com momentos de alívio. A pessoa mantém a capacidade de experimentar prazer em certas situações, ainda que reduzida.

Há preservação da autoestima, a pessoa não se vê como inútil ou má. O sofrimento tende a diminuir gradualmente ao longo de semanas e meses, e a pessoa consegue, progressivamente, retomar suas atividades e vida social.

Transtorno Depressivo Maior: Aqui observamos um humor deprimido persistente e generalizado, presente na maior parte do dia, quase todos os dias. A pessoa perde interesse ou prazer em praticamente todas as atividades (anedonia).

Há sentimentos intensos de inutilidade ou culpa excessiva, não relacionados apenas à perda. Sintomas como alterações no sono, apetite, energia e concentração são comuns, podendo ocorrer pensamentos recorrentes de morte. No transtorno depressivo maior, o humor deprimido é generalizado e não está especificamente ligado a pensamentos sobre a pessoa que partiu.

Transtorno de Luto Prolongado: O Transtorno de Luto Prolongado ocorre quando o luto intenso persiste por mais de 12 meses após a perda (6 meses em crianças). A pessoa experimenta saudade intensa e persistente ou preocupação com a pessoa que partiu, que domina seu funcionamento diário.

Há dificuldade significativa em aceitar a morte, evitação de lembranças, dificuldade em se reconectar com a vida e sentimento de que a vida perdeu o sentido devido ao falecimento. Isso causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes. No transtorno de luto prolongado, o sofrimento não diminui com o tempo e interfere marcadamente no funcionamento global da pessoa.

6- Como a formação em TCC prepara o terapeuta para lidar com o luto de forma técnica e sensível?

O princípio nº 1 da TCC diz que os planos de tratamento na TCC estão baseados em uma conceitualização cognitiva em desenvolvimento contínuo (Beck, 2022). Isso significa que nossos planos de tratamento são absolutamente individualizados e baseados no entendimento dos padrões cognitivos, comportamentais e emocionais de cada cliente.

Assim, a formação em TCC ajudará o terapeuta a compreender como a psicologia baseada em evidências pode auxiliar seus clientes a usar o melhor dos protocolos científicos para, de forma individual, criar novas redes neurais com comportamentos e pensamentos mais adaptativos que os ajudarão a atravessar seu processo de luto de maneira mais suave.

7- No evento “O manejo das complicações do luto com a Terapia Cognitivo-Comportamental”. O que o público pode esperar desse encontro?

Neste evento, apresentarei meu novo livro “Tchau, meu bem: sobre quando perdemos alguém”, no qual abordo como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ser uma ferramenta valiosa e cientificamente fundamentada no manejo das complicações do luto.

O público poderá conhecer estratégias práticas baseadas em evidências, compreender melhor sobre o luto e suas complicações, e aprender como a TCC oferece um caminho para quem enfrenta esse processo.

Participe do evento online “O manejo das complicações do luto com a Terapia Cognitivo-Comportamental” e aprofunde-se nesse tema tão essencial.

Data: 16 de dezembro de 2025
Horário: 19h30 (horário de Brasília)
Local: Evento 100% online e gratuito, com transmissão pelo Zoom
Palestrante: Dra. Thaís Bezerra de Menezes — Psicóloga, doutora (Ph.D.) em Psicologia pela UFPB e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Prof. Vinícius Pereira Pinto Xavier – Psicólogo, doutor em Psicologia pela PUC Goiás, membro da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas e Comportamentais (FBTC) e referência em Análise do Comportamento.

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