Como essa ex-aluna usa a neuropsicologia para mudar o futuro de crianças em situação de vulnerabilidade social
A neuropsicologia costuma ser apresentada como uma ciência precisa, técnica, apoiada em testes, protocolos e diagnósticos minuciosos. No entanto, quando ela atravessa os muros da academia e encontra realidades marcadas pela vulnerabilidade social, passa a cumprir um papel ainda mais urgente: o de oferecer compreensão, direção e, sobretudo, possibilidade de futuro.
É exatamente nesse ponto de encontro entre ciência e realidade que se constrói a trajetória de Jessica Júlia Martins, psicóloga e neuropsicóloga infantil e juvenil, ex-aluna da pós-graduação presencial em Neuropsicologia do IPOG Florianópolis. Atuando em Balneário Camboriú, ela leva avaliações neuropsicológicas e atendimentos psicoterapêuticos a crianças e adolescentes que, em muitos casos, aguardariam anos por esse cuidado no sistema público.
Quando a prática clínica pede mais do que boa intenção
Desde a graduação, Jessica já demonstrava uma relação próxima com a neurociência. Ainda na universidade, participou da fundação da Liga Acadêmica de Neuropsicologia, movimento que traduzia um interesse antigo pelo funcionamento do cérebro e pelo impacto das funções cognitivas no desenvolvimento infantil.
Entretanto, foi no cotidiano da clínica que essa curiosidade se transformou em necessidade. Atuando com crianças e adolescentes em contextos complexos, muitos deles filhos de dependentes químicos, Jessica passou a lidar com atrasos no desenvolvimento, dificuldades de aprendizagem e alterações cognitivas que não podiam ser compreendidas apenas pela psicologia tradicional.
“Eu buscava uma formação que me desse repertório e base para trabalhar com essas crianças”, explicou. Segundo ela, a dependência química no ambiente familiar frequentemente provoca impactos profundos no desenvolvimento cognitivo, exigindo um olhar mais técnico e integrado. Assim, a neuropsicologia deixou de ser uma especialização desejável e passou a ser um passo essencial.
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A escolha pelo IPOG e a construção de uma base sólida
A decisão pela pós-graduação não foi tomada de forma impulsiva. Pelo contrário, Jessica e uma amiga, que também buscava formação em neuropsicologia, dedicaram tempo à pesquisa. Avaliaram instituições, analisaram a matriz curricular e observaram atentamente o corpo docente disponível na região.
Nesse processo, o IPOG Florianópolis se destacou. “A gente viu os professores, os docentes, e percebeu que eram referências na área”, contou. A escolha, feita a partir de critérios técnicos e afinidade com a proposta pedagógica, se mostrou decisiva para o que viria depois.
Durante a especialização, Jessica encontrou algo que considera central até hoje: o estímulo constante ao raciocínio clínico. Como ela mesma relembra, uma frase ecoava com frequência nas aulas: a clínica é soberana. Ou seja, o conhecimento científico precisava servir ao paciente, respeitando contexto, história e realidade social.
Aprender a adaptar, não a engessar
Um dos maiores aprendizados da formação em neuropsicologia, segundo Jessica, foi compreender que técnica e sensibilidade não caminham em direções opostas. Pelo contrário, se fortalecem quando aplicadas juntas.
Durante o curso, professores apresentavam recursos que iam além dos testes tradicionais, como jogos, atividades lúdicas e avaliações qualitativas, sempre ancoradas em fundamentação teórica sólida. “Eu consigo adaptar isso para a ONG”, explicou, destacando que muitos desses recursos são viáveis mesmo em contextos com orçamento limitado.
Assim, a neuropsicologia que ela passou a aplicar não ficou restrita ao consultório particular. Ela atravessou a sala de aula, ganhou forma na prática e se moldou à realidade de quem mais precisa.
Neuropsicologia dentro da ONG: quando o acesso muda histórias
Atualmente, Jessica atua no Núcleo Assistencial Humberto de Campos (NAHC), uma ONG que atende crianças, adolescentes e suas famílias em situação de vulnerabilidade social, muitas delas marcadas pelo risco associado à dependência química.
O cenário impõe limites claros. Como organização sem fins lucrativos, a ONG não dispõe de recursos abundantes para a compra de testes neuropsicológicos, que são caros e essenciais para avaliações formais. Ainda assim, o trabalho acontece, passo a passo.
Parte dos materiais é adquirida aos poucos, com esforços pessoais e iniciativas coletivas, como feirinhas organizadas a partir de doações. Hoje, a instituição realiza cerca de 600 atendimentos psicoterápicos por mês e, em média, 10 avaliações neuropsicológicas, voltadas exclusivamente para crianças e adolescentes, um número pequeno à primeira vista, mas gigantesco para quem estava há anos na fila.
“O que me move é saber que a gente está ajudando, nem que seja o mínimo possível”, afirmou. Segundo Jessica, muitas dessas famílias nunca haviam sido assistidas de forma adequada, e ter esse olhar atento aos detalhes faz toda a diferença.

Avaliar para compreender, não para rotular
Na prática, a avaliação neuropsicológica aplicada por Jessica vai muito além de um diagnóstico. Ela funciona como uma ferramenta de compreensão, tanto para a criança quanto para a família.
“Ajudou aquela criança a entender que o problema não era ela, é o desenvolvimento”, explicou. A partir dessa compreensão, pais e responsáveis conseguem construir estratégias mais adequadas para lidar com dificuldades cognitivas, emocionais e comportamentais, reduzindo culpas e ampliando possibilidades.
Consequentemente, o impacto do trabalho se estende. Não se limita ao paciente, mas alcança a dinâmica familiar, o ambiente escolar e a forma como aquela criança passa a se perceber no mundo.
Marcos que definiram sua trajetória
Quando questionada sobre os momentos mais marcantes da carreira, Jessica evita apontar apenas um. Para ela, a trajetória é feita de vários marcos, alguns discretos, outros simbólicos.
A primeira aplicação de um teste neuropsicológico veio acompanhada de estudo intenso e muita expectativa. O primeiro laudo entregue também representou um rito de passagem. Houve ainda gestos que ficaram gravados, como o dia em que uma professora do IPOG, ao conhecer seu trabalho na ONG, lhe presenteou com o manual de um teste que ela desejava levar para as crianças.
No entanto, são os encontros inesperados que mais a emocionam. “Quando encontro ex-pacientes na rua e eles me abraçam, me chamam de ‘tia Jessica’”, contou, destacando que esses momentos traduzem o sentido mais profundo do que faz.

Cuidar da infância é uma escolha de futuro
Ao refletir sobre o próprio trabalho, Jessica costuma recorrer a uma frase que a acompanha há anos: “a infância é o caminho que a gente anda no futuro”. Para ela, cuidar da infância é investir na base de tudo.
“A gente cuida da infância para construir seres humanos melhores, mais saudáveis, mais desenvolvidos”, afirma.
A história de Jessica mostra que a neuropsicologia, quando aliada a uma formação sólida e a um propósito claro, pode romper barreiras, reduzir desigualdades e transformar trajetórias. Não apenas a de quem cuida, mas, principalmente, a de quem é cuidado.
