O que a série Ruptura nos ensina sobre saúde mental e equilíbrio entre vida e trabalho?
A segunda temporada de Ruptura (Severance) estreou em janeiro deste ano, reacendendo debates sobre trabalho, identidade e saúde mental. Com a confirmação sobre uma terceira temporada, a série de grande sucesso do Apple TV+ se mantém no centro das discussões, conquistando público e crítica com sua premissa perturbadora: e se fosse possível dividir completamente sua vida pessoal e profissional?
Na trama, os funcionários da Lumon passam por um procedimento que separa suas memórias. Durante o expediente, não sabem nada sobre quem são fora dali, quando saem do trabalho, perdem completamente as lembranças do que fizeram no escritório.
Com a crescente pressão profissional e o avanço do burnout, muitos trabalhadores adotam pequenas “rupturas mentais” para sobreviver à rotina. Separar emoções, evitar reflexões sobre a carga de estresse e funcionar no “piloto automático” são mecanismos comuns. Mas a que custo? Até que ponto essa desconexão protege, e quando ela começa a nos afastar de quem realmente somos?
Afinal, separamos nossas vidas por escolha ou por necessidade? Será que a verdadeira solução para o esgotamento não está na ruptura, mas sim no equilíbrio? Neste artigo, vamos falar sobre as lições que Ruptura nos deixa sobre saúde mental e entender como podemos aplicar esses aprendizados no nosso dia a dia.
O perigo de construir sua identidade em torno da carreira
Em Ruptura, os funcionários da Lumon vivem uma realidade extrema: ao entrar no trabalho, suas memórias externas são apagadas, e ao sair, esquecem tudo o que fizeram no escritório. Para Helly R. (Britt Lower), essa experiência rapidamente se transforma em um pesadelo, sem qualquer lembrança de quem era antes de ser contratada, ela percebe que sua única existência acontece dentro da empresa.
Mas essa sensação de viver apenas para o trabalho não é algo exclusivo da ficção. Segundo o Datafolha (2024), 47% dos brasileiros sentem que sua identidade está diretamente ligada ao trabalho, o que pode dificultar a construção de uma vida equilibrada.
A psicóloga Alessandra Demito, doutora em saúde mental e professora no IPOG, destaca que o trabalho é um fator essencial na construção da identidade, mas alerta para os riscos de depender exclusivamente dele para atribuir valor a si mesmo.
Segundo a especialista, “o trabalho é central para a nossa identidade. O que fazemos e a maneira como percebemos nosso valor são elementos que fortalecem nossa autoimagem. Nossa identidade funciona como uma armadura psicológica, protegendo nosso psiquismo. No entanto, quando toda a construção dessa identidade se baseia na vida profissional, qualquer crise no trabalho pode desencadear um grande impacto emocional.”
Quando o trabalho se torna sua única referência de valor
A cultura corporativa frequentemente nos leva a acreditar que o trabalho deve ser o centro da nossa identidade. Em Ruptura, esse conceito é levado ao extremo: Irving B. (John Turturro) não apenas aceita as regras da Lumon, mas as segue com devoção cega, como se seu propósito de vida estivesse inteiramente dentro da empresa.
Embora essa realidade pareça distante, a verdade é que muitas pessoas, sem perceber, adotam uma postura semelhante no dia a dia.
Na vida real, a obsessão por produtividade e a glamourização do workaholismo criam um ambiente onde descansar pode ser visto como fraqueza. O medo de parecer descomprometido, somado à pressão por resultados constantes, faz com que muitos trabalhadores sintam culpa ao se desconectar da rotina profissional.
Mas essa mentalidade tem um custo alto: segundo a Fiocruz (2024), 6 em cada 10 brasileiros relatam sintomas de burnout ou estresse crônico, evidenciando os impactos dessa sobrecarga na saúde mental.
A questão, então, não é apenas sobre trabalhar demais, mas sobre o que acontece quando o trabalho se torna nossa principal referência de valor. Se, assim como os funcionários da Lumon, nossa vida se resumir ao expediente, corremos o risco de perder o equilíbrio e nos desconectar daquilo que realmente nos define.
Se em muitos casos o trabalho se torna a única referência de identidade, Ruptura também nos faz refletir sobre o outro extremo:
O que acontece quando tentamos nos desconectar completamente da vida profissional?
Na Lumon, os funcionários passam por um procedimento que separa suas memórias, criando um “eu profissional” que nunca experimenta nada fora da empresa. No entanto, essa tentativa de isolamento não elimina o sofrimento — apenas o transforma.
Na realidade, esse tipo de desconexão forçada também pode ter efeitos nocivos. Quando ignoramos a necessidade de equilibrar vida pessoal e trabalho, o impacto na saúde mental se torna evidente.
Estudos da USP (2024) indicam que a incapacidade de administrar essa relação pode aumentar os níveis de cortisol em até 40%, afetando a memória, a concentração e o bem-estar emocional. Isso mostra que a solução não está em cortar laços com a carreira, mas sim em desenvolver uma relação mais saudável com ela.
A principal lição que a série nos traz é que nenhum dos extremos é sustentável. Se por um lado definir-se apenas pelo trabalho pode levar à exaustão, por outro, tentar separar completamente a identidade profissional da pessoal pode gerar um sentimento de vazio e alienação.
Criar uma vida que vá além do ambiente corporativo, com hobbies, relações sociais e momentos de descanso — é essencial para manter a saúde mental. No fim, assim como Helly luta para recuperar o controle sobre sua própria existência, talvez seja hora de reavaliarmos o que realmente nos define para além do que fazemos.
Dissociação emocional: será que seu cérebro já apertou o “botão de ruptura”?
Na trama, o protagonista Mark S. (Adam Scott) aceita dividir sua mente em duas versões como uma tentativa de fuga. Fora da Lumon, ele vive o luto pela esposa falecida; dentro, seu “eu profissional” não tem a menor ideia de sua dor. A proposta parece simples: separar emoções para evitar o sofrimento. Mas, na prática, será que esse mecanismo realmente nos protege?
Embora o procedimento da série seja ficção, a dissociação emocional é um fenômeno real e bastante comum. Quando enfrentamos situações de estresse intenso, nosso cérebro pode “desligar” certas emoções como forma de autopreservação. Esse estado pode se manifestar de diversas maneiras: trabalhar no piloto automático, sentir-se emocionalmente distante ou até perder a noção do tempo ao longo do expediente.
Demito enfatiza que dissociar emoções no trabalho pode ser prejudicial. “Nós somos seres emocionais. Nossas emoções fazem parte da nossa humanidade. Tentarmos ignorá-las pode parecer um mecanismo de defesa, mas, na verdade, nos priva de habilidades essenciais, como criatividade, inovação e boas relações interpessoais. Sem emoção, não conseguimos evoluir na gestão emocional,” destaca.
Segundo o relatório global “World Mental Health Day 2024”, Brasil é o quarto país mais estressado do mundo e 62% dos entrevistados (três em cada cinco, em média) afirmam ter se sentido tão estressados que o sintoma impactou na vida diária pelo menos uma vez. Um reflexo de como muitos já recorrem, inconscientemente, a essa “ruptura” mental para lidar com a rotina.
Os riscos da dissociação emocional no dia a dia
O problema surge quando essa defesa se torna um padrão. No início, pode parecer funcional, permitindo que continuemos produtivos mesmo em meio a dificuldades pessoais. No entanto, ao longo do tempo, a falta de processamento emocional pode gerar um acúmulo silencioso de estresse.
Muitas vezes, os sinais só aparecem quando a sobrecarga já se tornou insustentável. Não à toa, o número de benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais aumentou 67% em 2024, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
Esse crescimento alarmante reflete como muitos trabalhadores ignoram os primeiros sinais de esgotamento até que o corpo e a mente simplesmente não conseguem mais suportar.
Além disso, essa desconexão emocional pode afetar outras áreas da vida sem que percebamos. Se passamos o dia ignorando sentimentos no trabalho, podemos começar a fazer o mesmo em momentos pessoais, distanciando-nos de relações importantes e perdendo a capacidade de reconhecer nossas próprias necessidades.
Como acontece com Mark, que começa a questionar as consequências do procedimento, é importante refletirmos sobre até que ponto ignorar nossas emoções é uma solução e quando isso se torna um problema. Ao contrário do que muitos pensam, desligar-se emocionalmente da rotina de trabalho não é uma solução eficaz — é um risco que pode levar ao esgotamento mental e à perda de propósito.
Burnout silencioso: quando a ruptura acontece sem que você perceba
Nem sempre o burnout se manifesta de forma explosiva. Em muitos casos, ele acontece de maneira sutil, como um desgaste acumulado que só se torna evidente quando o corpo e a mente já estão no limite. Esse esgotamento silencioso é perigoso porque, enquanto tentamos manter a produtividade, ignoramos os sinais que indicam que algo não está bem.
Na série, Irving acredita cegamente que sua missão na Lumon é seguir as regras, sem questionamentos. Seu compromisso inabalável com a empresa o impede de perceber o próprio sofrimento. Fora da ficção, esse mesmo padrão acontece quando a cultura do workaholic e do “trabalhar por propósito” faz com que muitas pessoas normalizem a exaustão.
Sinais de um Burnout silencioso:
Cansaço constante – você acorda sem energia, mesmo após uma noite de sono;
Dificuldade de concentração – tarefas simples parecem mais demoradas do que antes;
Apatia e distanciamento – o trabalho que antes motivava agora parece sem sentido;
Irritabilidade frequente – pequenas situações geram um estresse desproporcional;
Dores físicas e insônia – sintomas como tensão muscular, dor de cabeça e noites mal dormidas se tornam recorrentes.
Como equilibrar vida e trabalho sem precisar de uma ruptura mental?
Separar completamente a vida pessoal da profissional pode parecer impossível, mas é sim possível encontrar um meio-termo. Segundo a professora Alessandra, o primeiro passo é a autoconsciência: “Cada pessoa precisa conhecer seus próprios limites para perceber quando está ultrapassando o ponto de equilíbrio. É importante identificar sinais de sobrecarga e ter um canal de diálogo aberto com gestores e colegas.”
Ela reforça a importância de avaliar diariamente o impacto do trabalho na vida pessoal:
“Ao final da maioria dos dias, você sente que ainda tem energia para aproveitar momentos com a família, cuidar de si mesmo e interagir com amigos? Se a resposta for sempre ‘não’, isso significa que seu equilíbrio entre vida pessoal e profissional está comprometido.”
Para evitar que o trabalho consuma toda sua energia, a especialista recomenda:
Comece definindo limites claros:
Estabeleça horários fixos para encerrar o expediente e respeite-os;
Evite responder e-mails ou mensagens de trabalho fora do horário combinado;
Crie um ritual de transição, como uma caminhada ou ouvir música, para separar o fim do trabalho e o início da vida pessoal.
Use a neurociência a seu favor:
Faça pausas estratégicas – o cérebro precisa de momentos de descanso para manter o foco e a criatividade;
Técnicas de respiração e mindfulness ajudam a reduzir os níveis de cortisol, diminuindo o estresse;
A exposição à luz natural durante o dia melhora o ritmo circadiano, ajudando na regulação do sono e do humor.
Cultive uma identidade além do trabalho:
Invista em hobbies que não estejam relacionados à sua profissão;
Fortaleça laços sociais – passar tempo com amigos e família é essencial para o bem-estar emocional;
Reserve momentos para atividades prazerosas sem culpa – descansar não é perda de tempo.
“Trabalhar é viver experiências tanto de prazer quanto de sofrimento. O problema ocorre quando o ambiente de trabalho não permite transformar experiências negativas em aprendizado e crescimento. Quando o trabalho nos paralisa no sofrimento, impedindo-nos de evoluir, é um sinal de que estamos nos distanciando emocionalmente,” reflete a especialista.
Equilibrar vida e trabalho não significa se desconectar totalmente da carreira, mas sim ter controle sobre quando se envolver e quando desligar. Afinal, somos muito mais do que aquilo que produzimos.
Saúde mental agora vira obrigação para empresas: a atualização da NR-01!
A saúde mental no trabalho deixou de ser apenas uma preocupação individual e passou a ser uma obrigação legal. A NR-01, atualizada em 2024, exige que, até maio deste ano, todas as empresas implementem diretrizes de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo medidas para preservar a saúde mental dos funcionários. Isto é, agora, cuidar do bem-estar dos trabalhadores não é mais opcional, é uma exigência formal.
Se na série Ruptura a Lumon tratava seus funcionários como peças descartáveis, no mundo real essa mentalidade precisa mudar. Empresas que ignoram os impactos psicológicos do trabalho podem enfrentar não apenas quedas na produtividade, mas também ações trabalhistas e multas por não garantir um ambiente psicologicamente seguro.
A legislação representa um avanço, mas para que tenha efeito real, as empresas precisam ir além da formalidade. Treinamentos, consultorias especializadas e uma cultura organizacional que priorize o equilíbrio entre vida e trabalho são fundamentais para evitar que o Burnout continue crescendo.
Afinal, como ressalta Demito, “a série é uma crítica contra o processo de alienação que muitos profissionais vivem ao depositar, na relação com o trabalho, toda a sua vida. Essa é uma decisão muito arriscada. Às vezes, o profissional acredita que, se ele fizer tudo pela organização, ele vai ter uma gratificação 100% — e não vai ter, porque isso não existe.”
A ficção de Ruptura pode parecer extrema, mas seus questionamentos sobre identidade e saúde mental são muito reais. O futuro do trabalho exige um novo olhar, e os profissionais preparados para essa mudança serão mais valorizados do que nunca!
Como se preparar para essa nova realidade?
Empresas precisarão de profissionais capacitados para implementar essas diretrizes. A formação especializada é um dos caminhos mais eficazes para desenvolver habilidades que ajudarão empresas a equilibrar produtividade e bem-estar. O IPOG oferece cursos de pós-graduação remotos e EAD, que possibilitam o aprendizado com flexibilidade e suporte de professores renomados.
Cursos que preparam você para o futuro do trabalho:
MBA Psicologia Organizacional e do Trabalho (Remoto)
Esse curso capacita profissionais para atuar estrategicamente na gestão de pessoas, promovendo ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos.
O que você vai aprender: Gestão do clima organizacional e cultura empresarial;
Técnicas para redução do estresse e prevenção do burnout;
Desenvolvimento de lideranças humanizadas;
Aplicação de estratégias para saúde mental no trabalho.
Para quem é indicado?
Psicólogos, gestores de RH, líderes empresariais e profissionais interessados em melhorar o bem-estar nas organizações.
Pós-graduação em Neurociência Aplicada ao Desenvolvimento de Pessoas e Organizações (EAD)
A neurociência é um diferencial competitivo no mercado corporativo, ajudando empresas a compreender o comportamento humano e melhorar processos de gestão.
O que você vai aprender: Como o cérebro influencia emoções e tomada de decisões no trabalho;
Técnicas para melhorar o engajamento e a motivação dos colaboradores;
Estratégias para aumentar a performance sem comprometer a saúde mental;
Métodos para desenvolver inteligência emocional e liderança.
Para quem é indicado?
Gestores, psicólogos, profissionais de RH, coaches e qualquer profissional que queira aplicar a ciência do comportamento humano na gestão de equipes.
O mercado está mudando, e empresas precisam de profissionais preparados para lidar com os desafios da saúde mental corporativa e do desenvolvimento humano. Destaque-se no mercado com uma pós-graduação do IPOG e torne-se um especialista na transformação dos ambientes de trabalho! Fale com um de nossos consultores!