Responsabilidade e ética empresarial: uma análise do caso Salesforce no Brasil
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05 de março de 2018

Responsabilidade e ética empresarial: uma análise do caso Salesforce no Brasil

No início do ano, o meio empresarial acompanhou o desligamento de três integrantes da filial da Salesforce no Brasil, onde constaram no pacote de demissões o presidente; o diretor comercial e um funcionário desta área. O motivo? A repercussão negativa de uma festa de confraternização de final de ano, que envolveu um concurso de fantasias. Caso você não tenha acompanhado o caso, ou não se recorde diretamente do assunto, vamos resumi-lo a seguir.

O fato

Durante a festa de confraternização da filial Salesforce no Brasil, foi organizado um concurso de fantasias. O quarto lugar foi arrematado por um funcionário de vendas que se inspirou em um meme batizado de “Negão do Whatsapp”. A fantasia trazia uma imitação de um pênis gigante.

Um funcionário da empresa que se sentiu ofendido com o teor da brincadeira fez uma denúncia anônima à matriz, que reagiu promovendo o desligamento do funcionário que usou a fantasia ofensiva, mas também incluiu no pacote o seu superior imediato e o presidente da filial.

Não foi confirmado oficialmente se o desligamento dos dois executivos da Salesforce no Brasil teve ligação direta com a repercussão negativa do concurso, ou mesmo, se houve uma tentativa por parte deles de defender o funcionário autor da brincadeira mal vista. O fato é que a oficialização dos desligamentos se deu meros dez dias após a confraternização.

O que se sabe é que a dispensa do presidente promoveu um levante de elogios e de solidariedade vindo de funcionários e ex-funcionários que saíram em defesa do seu profissionalismo e competência. Sua página no Linkedin chegou a registrar 85 manifestações de elogios à sua pessoa.

Com a palavra, uma autoridade no assunto

Para analisar esse fato atípico do meio empresarial, o IPOG convidou uma referência em gestão corporativa, o consultor (e também professor de pós graduação nas áreas de Gestão e Negócios do IPOG), Marcelo Camorim. Somando mais de 30 anos de experiência na condução de multinacionais, Camorim tem se dedicado a compartilhar sua gestão aprimorada de negócio, por meio de consultorias a renomadas empresas do cenário nacional. Acompanhe a seguir essa entrevista exclusiva sobre o assunto.

IPOG – Camorim, como você avalia a postura do funcionário da Salesforce no Brasil diante da escolha da fantasia? Você acha que ele foi negligente com relação aos valores da empresa?

Marcelo Camorim – O mundo está ficando cada vez mais exigente e menos tolerante com excessos. Minha opinião pessoal é que em uma festa é muito normal que as pessoas descontraiam, brinquem e criem um ambiente que não seja hostil, nem mesmo meritocrático. Acredito que o excesso veio da parte do Conselho de Administração da multinacional ao impor uma medida cultural tão rigorosa à empresa. Minha experiência profissional mostra que as empresas estão se abrindo para a descontração, permitindo a adoção de estilos pessoais como cabelos compridos para homens, uso de roupas mais casuais como tênis e bermudas; chegando ao ponto de disponibilizar em suas áreas comuns de descanso mesas de bilhar e jogos diversos. Na minha visão de consultor empresarial, que preza por resultados e não pelo rigor nas relações interpessoais, houve um excesso por parte dos dirigentes ao demitirem até o presidente da empresa.

IPOG – Como você avalia o desligamento dos executivos (diretor comercial e presidente) da Salesforce no Brasil?

Marcelo Camorim – Não entendo que houve uma falta de respeito aos valores da empresa por parte dos executivos desligados. Vejo que a matriz possa ter interpretado a fantasia do funcionário como ofensiva sim! Mas dai, chegar ao extremo de demitir um CEO por isso… acho que não se justifica. Estamos em um mundo permeado por escândalos de todas as naturezas, como os que atingem Hollywood, e que supostamente ocorreram há mais de 20 anos. Esses excessos têm se mostrado muito presentes nos âmbitos públicos e até mesmo empresariais. Há que se ter uma certa cautela ao usar as medidas para se julgar uma sociedade que funciona de forma mais livre nos dias atuais.

IPOG – O senhor achou drástica a medida da empresa de desligar todos? Qual seria a sua postura diante do fato?

Marcelo Camorim – Com certeza foi uma medida drástica! Não se demite executivos assim como se fossem descartáveis. Foi essa a mensagem que a empresa passou para o restante do mundo. Isto é uma perda muito grande para a organização e uma mensagem autoritária para os que ficam. Diante do análise da empresa de não concordar com a brincadeira feita, o mais indicado era contactar o profissional e apresentar a ele os limites empresariais, em uma conversa séria. Não se pode desvalorizar um profissional com anos de experiência de mercado motivado por uma atitude mal sucedida, que ele tomou em um momento de descontração. Minha postura seria a de conversar com esse profissional, demonstrando que a organização não apoia este tipo de postura.

IPOG – Qual lição podemos levar para a vida empresarial? Nos dê um parâmetro sobre conduta empresarial no dia a dia.

Marcelo Camorim – Temos que diferenciar confraternização empresarial de postura adotada no dia a dia. Ou seja: em nossa rotina de trabalho, devemos manter uma postura profissional a todo momento. Piadinhas de mau gosto, assédio, falta de respeito devem ser combatidos permanentemente pelos dirigentes. A diferença está em você saber direcionar ou repreender o profissional com respeito. A outra forma é desmerecê-lo com desdém, o que não é aceitável.

Veja a análise que o consultor Marcelo Camorim fez dos pontos fortes e fracos do filme Fome de Poder – a história por detrás da ascensão da rede McDonalds.

 


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Sobre Marcelo Camorim

Tem 30 anos de experiência em empresas multinacionais, tendo ocupado cargo de CEO de grandes empresas como Ricardo Eletro, Drogaria Santa Marta, entre outras. É contador e bacharel em Direito, com MBA em Gestão de empresas e MBA em Relação com Investidores. Atualmente é Presidente do Conselho de Administração da Hospfar; conselheiro há 7 anos da GSA Alimentos e conselheiro convidado da FECOMÉRCIO do Estado do Ceará. Atua como professor do Instituto de Pós-Graduação e Graduação IPOG em MBAs nas áreas de Gestão e Negócios.

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